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Você já chegou ao seu limite?

Por Ananda Antenor e Angela Fushita

Por Nação Sampa News em 29/04/2021 às 13:44:21

Ananda Antenor e Angela Fushita



Ananda de Oliveira Gonçalves Antenor: Graduada no Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T) (2016) e Engenharia Ambiental e Urbana (2018), pela Universidade Federal do ABC - UFABC e mestranda pelo programa de Ciência e Tecnologia Ambiental na mesma universidade (2020). Atualmente, cursando Ciências da Computação (Pós - BC&T) e iniciando o doutorado no programa em Evolução e Diversidade.





Angela Terumi Fushita: Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos (2003), especialista em Geoprocessamento e mestrado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (2006) e doutorado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (2011). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do ABC. Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia da Paisagem e Áreas protegidas, atuando principalmente nos seguintes temas: ecologia da paisagem, planejamento ambiental e indicadores da paisagem.







Hoje, queremos trazer um tema complementar a série dos Serviços Ecossistêmicos https://nacaosampanews.com.br/noticia/875/servicos-ecossistemicos.html, e começamos com uma pergunta. Será que é possível saber o quanto e por quanto tempo o nosso planeta suportará as perturbações e pressão sobre os recursos e os ecossistemas naturais?

Ao longo das eras geológicas, o planeta Terra teve mudanças significativas, como as eras glaciais e interglaciais, de tal forma que nos últimos 10.000 anos, os processos globais estariam estáveis e mantendo a sua capacidade de suporte e de manutenção (por exemplo, auto-regulação da temperatura, a manutenção do ciclo hidrológico e a disponibilidade de água doce, entre outros) o que permitiu que as espécies surgissem e se desenvolvessem. É nessa era geológica de estabilidade, conhecida como Holoceno, que a espécie Homo sapiens surge e começa a alterar o ambiente.

Entretanto, recentemente (pensando em tempo geológico), as mudanças ambientais se intensificaram a partir, principalmente, da Revolução Industrial, e assim, uma nova era geológica foi definida, o Antropoceno, que tem as ações humanas como principal impulsionador de mudanças ambientais globais que "empurram" o sistema terrestre para além do estado de operação estável (seguro) do Holoceno. Se não houvesse a pressão dos seres humanos, esperava-se que o Holoceno continuasse por vários milhares de anos (Rockström, 2009).

Com uma dependência crescente de combustíveis fósseis e formas industrializadas de produção de bens pela sociedade moderna, as atividades humanas alteram de forma abrupta os sistemas que mantêm a Terra no estado de operação estável que existia no Holoceno, e têm resultados que podem ser irreversíveis e, inclusive, induzir a uma condição não propícia para a espécie humana.

Em 2009, Johan Rockström e colegas, publicaram na revista Nature, o artigo: "A safe operating space for humanity" (algo como "Um espaço operacional seguro para a humanidade"). Essa equipe de cientistas estudou

processos ecológicos chaves do planeta Terra, identificando valores (limites) em relação à operação segura (estável), ao aumento de risco (ou zona de incerteza) e à zona de alto risco para cada processo, de forma que se esses limites forem ultrapassados, a capacidade de suporte do Planeta Terra em se recuperar das perturbações será irreversivelmente afetada. A esses processos e aos limites identificados chamamos de Limites Planetários e são sobre eles que vamos abordar neste texto.

Os nove limites planetários são: 1) Mudança climática; 2) Taxa da perda da biodiversidade (terrestre e marinha); 3) Interferência nos ciclos de nitrogênio e fósforo; 4) Depleação do ozônio estratosférico; 5) Acidificação dos oceanos; 6) Uso global da água doce; 7) Mudança no uso da terra; 8) Poluição química; 9) Carga de aerossol atmosférico.


Figura 1 – Limites planetários. O sombreado verde interno representa os valores limítrofes seguros para cada um dos noves sistemas ambientais planetários. As fatias vermelhas representam uma estimativa da posição atual para cada variável. Os limites em três sistemas (taxa de perda de biodiversidade, mudanças climáticas e interferência humana no ciclo do nitrogênio), já foram excedidos. Fonte: Adaptado de Rockström, 2009.


Neste estudo de 2009, os limites planetários perda da biodiversidade, mudança climática e interferência no ciclo do nitrogênio haviam ultrapassado o limite considerado seguro (estável), estando na zona (ou intervalo) de alto risco para irreversibilidade das consequências. Já os limites uso global de água doce, mudança no uso do solo, acidificação dos oceanos e a interferência humana no ciclo do fósforo estavam se aproximando dos valores limítrofes, (zona de incerteza). É importante saber, também, que alguns limites planetários não têm estudo suficiente para definir os valores limítrofes ou as zonas de segurança, como é o caso da Carga de aerossol atmosférico e da Poluição química.

Para entender os limites planetários, vamos fazer uma analogia do Planeta Terra a um organismo vivo (estamos recorrendo à Teoria de Gaia). Cada processo ecológico é como um órgão que funciona dentro dos seus limites normais e estáveis. Nesse período de estabilidade, que é o Holoceno, qualquer perturbação (por exemplo, uma doença) que o acometesse, esse organismo consegue se recuperar. Entretanto, recentemente, em virtude de novos hábitos de consumo (ou seja, no Antropoceno), vários órgãos estão funcionando acima dos limites normais, e quando há uma perturbação ambiental abrupta (doença) que impacta um ou mais processos ecológicos (órgãos), as consequências são imprevisíveis e até mesmo irreversíveis.

Vamos aprofundar a analogia e usar como exemplo de perturbação abrupta, a pandemia de COVID-19. O que poderia acontecer a esse organismo? Pode ser que, ao se infectar não tenha sintoma algum ou se recuperou rapidamente, voltando para o seu estado "normal" antes da pandemia. Talvez, ao se infectar, tenha sintomas leves, mas depois de alguns meses percebe que sua rotina foi alterada; ou ainda, pode ser que mais de um órgão é acometido pela doença e precisa de medicamentos e de respiradores para aumentar a sua capacidade de suporte para se recuperar, mas com sequelas, necessitando, ainda, de um longo período de tratamento. Em alguns casos, infelizmente, vários órgãos tiveram seu funcionamento comprometido, intensificando as consequências, levando à falência total dos processos.

Quando falamos sobre os limites planetários, assim como a pandemia de COVID-19, não sabemos o que vai acontecer, mas a realidade é que o novo estado imposto seja por uma perturbação, seja a pandemia (para cada um de nós como um organismo) ou pelas mudanças ambientais globais (para o Planeta Terra), nos obriga a se adaptar a um novo estado, que ainda não sabemos o que será.

Ultrapassar todos os limites planetários é exatamente se adaptar a um novo estado que não fazemos ideia do que pode vir a ser (zona de incerteza), mas o que sabemos é que com toda certeza será cada vez mais desafiador e, por isso, quando pensamos que os nossos hábitos e ações no dia-a-dia podem impactar nesse organismo vivo, faz toda a diferença agirmos localmente. Para o planeta Terra, a depender das nossas ações e interferências humanas, ainda é possível a sua recuperação?

Curiosidades sobre os estudos em relação aos Limites Planetários:

Em 2015, em estudo publicado na Science, Steffen e colegas, atualizaram a estrutura proposta para os Limites Planetários. Em linhas gerais, os vários limites foram atualizados para ter uma abordagem de duas camadas para refletir a importância da escala cruzada das interações e a heterogeneidade em nível regional dos processos que sustentam os limites planetários.

No caso, taxa de perda da biodiversidade passou a se chamar integridade da biosfera e passou a ter dois níveis: diversidade funcional e diversidade genética; interferência nos ciclos de nitrogênio e fósforo passou a ser chamados de ciclos biogeoquímicos e são compostos também por dois níveis: fósforo e nitrogênio; uso global da água doce passou a ser denominado apenas de uso da água doce e poluição química passou a ser novas entidades.

Além disso, identificaram que os dois principais limites planetários seriam a mudança climática e a integridade da biodiversidade, pois cada um deles tem o potencial próprio para conduzir o sistema terrestre a um novo estado caso sejam transgredidos de forma substancial e persistente.


Figura 2 – Limites planetários atualizados. O sombreado verde interno representa os valores limítrofes seguros para cada um dos noves sistemas ambientais planetários. As fatias amarelas representam que os valores estão aumentando, enquanto que, as fatias vermelhas representam um alto risco de não retorno desse processo. As fatias em cinza são os limites que ainda não foram quantificados. Fonte: Adaptado de Steffen et al., 2015.

Em 2020, Lade e colegas, fizeram um novo estudo sobre os limites planetários, publicado na Nature Sustainability, em que trouxeram resultados de como esses processos se inter-relacionam e investigaram as suas consequências para a governança da sustentabilidade. Resumidamente, chegaram a três conclusões importantes:

i) O entendimento sobre como os limites planetários se inter-relacionam e os impactos da humanidade sobre eles é crucial, por exemplo, os autores calcularam que interações que são mediadas biofisicamente quase dobraram os impactos humanos nos limites planetários;

ii) A maioria das interações encontradas foram amplificadoras, ou seja, os impactos em um limite planetário levam a maiores impactos em outros limites planetários. Por um lado, isso significa que as ações humanas em forma cascata pode complicar a governança sustentável do sistema terrestre, mas por outro lado, se os impactos em um limite planetário forem diminuídos, pode ocorrer à diminuição em outros limites planetários como consequência;

iii) Por último, as interações entre os limites planetários levam a compensações entre os diferentes limites (trade-offs). Por exemplo, as interações entre a atividade agrícola e as emissões de carbono significam que altos níveis em ambas as atividades não podem ser mantidas. Portanto, essas compensações oferecem à humanidade alguma liberdade na escolha de como navegar até um espaço operacional seguro.


Referências:

BBC. Um terço das mortes no mundo: 3 gráficos fundamentais para entender a pandemia no Brasil. Abril de 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56607007

Rockström, J., et al. A safe operating space for humanity. Nature, vol. 461, p. 472-475, 2009.

Steffen, W., et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science, vol. 347, p. 736-747, 2015.

Lade, S. J., et al. Human impacts on planetary boundaries amplified by Earth system interactions. Nature Sustainability, vol. 3, p. 119-128, 2020.








Fonte: Ananda Antenor e Angela Fushita

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