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Por que a variante mutante de coronavírus do Amazonas intriga cientistas

variante mutante de coronavírus

Por Nação Sampa News em 15/01/2021 às 02:50:54


Ainda n√£o se sabe se a nova cepa identificada no estado agrava a Covid-19. Em entrevista à DW Brasil, pesquisador da Fiocruz Amazônia explica import√Ęncia do sequenciamento genético para conter epidemia.Depois de o Jap√£o identificar uma nova variante de coronavírus em viajantes que estiveram no Amazonas, o estado confirmou nesta quarta-feira (13/01) que a mesma cepa é respons√°vel pelo primeiro caso de reinfec√ß√£o em seu território.

Foram pesquisadores da Fiocruz Amazônia, em Manaus, que fizeram o sequenciamento genético do vírus coletado no paciente brasileiro. Após a compara√ß√£o com o resultado do teste feito na primeira ocorr√™ncia da doen√ßa na mesma pessoa, os cientistas concluíram que a nova linhagem era respons√°vel pela reinfec√ß√£o.

Numa corrida contra o tempo e com recursos financeiros limitados, a institui√ß√£o tenta identificar o momento exato em que o vírus sofreu as novas muta√ß√Ķes e se essas características s√£o respons√°veis pelo recrudescimento da pandemia no estado. Com hospitais e cemitérios em colapso e relatos de falta de oxig√™nio, o Amazonas registrou mais de 5.800 mortes por covid-19 até esta quarta-feira.

Em entrevista à DW, o pesquisador Felipe Naveca, virologista e pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane da Fiocruz Amazônia, explica por que o sequenciamento genético constante do vírus é uma importante ferramenta para conter a pandemia. "Se a gente identificar uma variante que escape da vacina, isso aconteceu em outras situa√ß√Ķes, a vacina ter√° que ser modificada pra poder conter. Mas se a gente barrar a circula√ß√£o do vírus, a gente aumenta as chances de isso n√£o acontecer", alerta.

Sem respostas claras, algumas medidas para barrar a circula√ß√£o no vírus mutante foram tomadas em diversos locais. O estado vizinho, Par√°, proibiu circula√ß√£o de barcos vindos do Amazonas e o Reino Unido proibiu voos procedentes do Brasil.


DW Brasil: Como come√ßou essa busca por vestígios da nova variante do coronavírus que teria sofrido muta√ß√£o no Brasil? Voc√™s j√° estavam investigando isso ou o alerta veio das autoridades japonesas?

Felipe Naveca: Desde mar√ßo de 2020 a gente fazia o sequenciamento genético das linhagens do coronavírus no Amazonas. Nós fizemos a primeira identifica√ß√£o no Norte do país, que foi um caso que veio da Espanha.

No último domingo, quando os pesquisadores japoneses notificaram o governo brasileiro desses casos que chegaram l√°, nós fomos investigar as sequ√™ncias genéticas japonesas e comparamos com as sequ√™ncias genéticas de amostras de pacientes do Amazonas feitas em novembro, e que havíamos acabado de fazer.

Quando comparamos, tomamos um susto ao ver que, sim, comprovava que a sequ√™ncia encontrada no Jap√£o tinha um ancestral no Amazonas. Fechava todo o vínculo epidemiológico e genético.

Como tínhamos sequ√™ncias genéticas de pacientes até novembro, n√£o tínhamos no nosso banco de dados as muta√ß√Ķes específicas que eles encontraram e que chamaram muito a aten√ß√£o. Temos um buraco entre final de novembro e início de janeiro, que é de quando as sequ√™ncias japonesas s√£o.


Independente disso, a gente j√° estava programando o sequenciamento genético de amostras recolhidas de pacientes de dezembro. Por conta dessa situa√ß√£o urgente, a gente come√ßou a preparar no laboratório o sequenciamento de janeiro pra sabermos com que frequ√™ncia essa variante est√° circulando.

O que mais chamou a atenção nessas variante e que está causando preocupação?

Muito interessante e preocupante ao mesmo é que essa variante identificada no Jap√£o, que vem da linha que j√° circulava aqui, tem muta√ß√Ķes em regi√Ķes muito importantes do vírus. É uma regi√£o chamada de 484 e 501 da proteína Spike (ela tem forma de coroa, que d√° nome à família dos coronavírus).

Essas duas muta√ß√Ķes identificadas no Jap√£o j√° foram associadas, em outros estudos na √Āfrica do Sul e na Inglaterra, a um aumento de transmiss√£o.

A muta√ß√£o acontece porque o vírus est√° sendo replicado milh√Ķes de vezes dentro do corpo de uma pessoa. E os erros nessa replica√ß√£o acontecem. Só que esse processo ocorre em milh√Ķes de pessoas ao mesmo tempo, as chances de muta√ß√Ķes aumentam exponencialmente. Quanto mais pessoas infectadas, mais o vírus evolui.

Um estudo recente da USP conseguiu mostrar que a muta√ß√£o identificada no Reino Unido deu ao vírus uma capacidade de se "ligar" com maior efic√°cia na célula humana. Isso também valeria para essa cepa do Amazonas?

Isso. Toda a muta√ß√£o na proteína Spike chama bastante aten√ß√£o, ainda mais se for no domínio de liga√ß√£o com o receptor da célula humana. E foi justamente onde aconteceram as muta√ß√Ķes.

Na linhagem japonesa, além dessas duas muta√ß√Ķes, existem outras. Na verdade, essa cepa tem muitas muta√ß√Ķes. A gente ainda precisa entender como essa variante acumulou tantas muta√ß√Ķes em t√£o pouco tempo.

Qual a prov√°vel explica√ß√£o pra isso? Com quais hipóteses voc√™s est√£o trabalhando?

H√° algumas hipóteses. Tudo indica que se trata de um fenômeno chamado de converg√™ncia evolutiva. Isso quer dizer que n√£o foi necessariamente a linhagem inglesa ou africana que vieram pra c√°: elas evoluíram aparentemente de forma independente. E evoluíram nos mesmos pontos. Isso chama muito a aten√ß√£o.

As hipóteses lan√ßadas é de que a muta√ß√£o pode ser sido fruto de infec√ß√£o de pessoas imunossuprimidas, como, por exemplo, pessoas com HIV, ou em tratamento de c√Ęncer¬Ö Quando o sistema imune n√£o consegue combater a infec√ß√£o, o corpo acumula mais ciclos de replica√ß√£o do vírus, o que d√° a ele mais chances de mutar. A gente j√° viu isso em outros vírus.

De qualquer maneira, o que a gente est√° vendo é o vírus circular de uma maneira quase que incontrol√°vel. Quanto mais pessoas ele infecta, maiores as chances de muta√ß√Ķes.

J√° se sabe se a muta√ß√£o do Amazonas é mais contagiosa que o vírus original, ou se causa casos mais graves de covid-19?

Sobre causar um quadro mais grave da doen√ßa nenhum resultado ainda apontou isso, em nenhum país. Mas as evid√™ncias que temos em laboratório e também por conta do vínculo epidemiológico no Reino Unido e na √Āfrica do Sul é que a transmiss√£o é maior, sim.

Às vezes, quando o vírus assume essa característica de ser mais transmissível, ele acaba diminuindo vantagens pra ele em outra circunst√Ęncia. Por exemplo, ele pode ser até mais infeccioso, mas n√£o ser mais letal.

J√° d√° pra saber se é essa cepa que est√° provocando esse aumento vertiginoso de casos no Amazonas que temos visto nos primeiros dias de 2021?


Ainda n√£o d√°. É por isso que a gente precisa sequenciar as coletas de vírus dos pacientes nesse intervalo, de dezembro e janeiro. E sequenciar muitas vezes pra saber em que momento isso aconteceu e qual é a frequ√™ncia disso agora.

Foi decido em v√°rias reuni√Ķes aqui, com autoridades da vigil√Ęncia sanit√°ria, que temos que sequenciar as amostras dos casos mais graves. Assim a gente vai conseguir ver se a essa variante est√° circulando e se a frequ√™ncia é maior em casos graves, ou n√£o.

Vocês vão receber algum apoio pra fazer esse trabalho? Como está a rotina do trabalho?

N√£o sabemos, mas esperamos receber um apoio financeiro pra podermos fazer mais. Comigo, somos dez pessoas trabalhando no laboratório na Fiocruz. Só que esse mesmo grupo faz o diagnóstico dos pacientes e o sequenciamento genético. H√° dias em que só conseguimos fazer diagnósticos, que é a prioridade, a gente tem que dar essa resposta para o paciente, se ele est√° ou n√£o infectado.


No ano passado, quando est√°vamos na pior época, abril e maio, interrompemos todas as pesquisas e ficamos mais de tr√™s meses só fazendo diagnóstico. Ficamos sobrecarregados. Nós n√£o somos um laboratório de rotina de exames, isso trouxe um impacto muito grande. Viramos noites, fizemos escalas, mas aquilo era prioridade.

Por que, nesse momento crítico da pandemia, é t√£o importante fazer sequenciamento genético do vírus coletado dos pacientes infectados?

H√° um ponto que é muito imediato. Quando foram feitos os primeiros protocolos de PCR em tempo real, que é exame padr√£o ouro feito para dar o diagnóstico de covid-19, ele foi baseado na sequ√™ncia genética gerada incialmente no vírus coletado em Wuhan, na China, onde come√ßou a epidemia.

Mas o vírus foi acumulando muta√ß√Ķes, e a gente n√£o sabe onde essas muta√ß√Ķes v√£o se fixar ao longo do tempo. Pode acontecer de uma muta√ß√£o dessa ocorrer justamente no local de reconhecimento do PCR em tempo real. Se isso acontecer, o exame que a gente faz n√£o funciona mais, o resultado ser√° um falso negativo.


Ent√£o a gente precisa estar sempre sequenciando pra ver onde acontecem as muta√ß√Ķes e ver se esse protocolo precisa ser reajustado. A gente j√° viu isso acontecer.

O segundo ponto: com informa√ß√£o genética, informa√ß√£o epidemiológica, data e local de coleta, a gente consegue rastrear a trajetória do vírus com muita precis√£o. Se voc√™ n√£o faz o sequenciamento genético, voc√™ só sabe o número de casos.

De qualquer maneira, seja um vírus mutante ou vírus original, se as pessoas tomarem os cuidados de distanciamento, m√°scara, lavagem das m√£os e uso de √°lcool em gel, elas se previnem do mesmo jeito. E se a gente toma os cuidados, a gente desacelera a velocidade de evolu√ß√£o do vírus. E a popula√ß√£o pode nos ajudar num momento como esse.

Essas muta√ß√Ķes podem ser um obst√°culo para que as vacinas j√° desenvolvidas funcionem?

Se a gente identificar uma variante que escape da vacina, isso aconteceu em outras situa√ß√Ķes, a vacina ter√° que ser modificada pra poder conter a epidemia. Mas se a gente barrar a circula√ß√£o do vírus, a gente aumenta as chances de isso n√£o acontecer.

Fonte: ISTO√Č

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