Coluna do Dainese
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Jornalismo não é Publicidade

Uma democracia só existe com imprensa livre

Por Nação Sampa News em 14/09/2020 às 16:57:54


Isabelle Taranha

Jornalista e Colunista

Formada em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

Coluna: O valor da produção jornalística



"Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade". Essa frase, que ainda costuma ser atribuída ao escritor e jornalista Eric Arthur Blair, conhecido pelo pseudônimo George Orwell, na realidade, foi dita pelo empresário William Randolph Hearst – o homem que serviu de inspiração para o personagem protagonista do filme "Cidadão Kane".

Essa citação representa bem a diferença entre Jornalismo e Publicidade: enquanto o primeiro apura os fatos para posteriormente traduzi-los e levá-los para a população, priorizando o interesse público, o segundo tem como objetivo fornecer informações sobre produtos ou serviços com fins comerciais, logo, o publicitário atua na visibilidade de sua marca, buscando conquistar clientes por meio do convencimento.

Apesar da área de comunicação estar cada vez mais fundida (Assessoria de Imprensa está aí para provar isso), os princípios de cada segmento prevalecem. Dessa forma, temos que tomar cuidado para não misturar as coisas. Erroneamente, Publicidade e Propaganda são usadas como sinônimos, mas não são – sem contar que o Jornalismo não é uma coisa nem outra.

Diferente da Publicidade, a Propaganda é uma estratégia de persuasão no âmbito ideológico:


Não é raro a confusão entre o Jornalismo e ambas as áreas do quadro acima, então é bom deixar claro as respectivas diferenças. Como já comparei Jornalismo com Publicidade e Publicidade com Propaganda, agora vou comparar o Jornalismo com Propaganda: o Jornalismo busca alcançar a imparcialidade da melhor forma possível (lembrando que é impossível ser 100% imparcial) e assume seu papel como mediador entre o fato e a sociedade. A Propaganda, por sua vez, possui um viés parcial, pois visa influenciar sua audiência de acordo com suas crenças ali apresentadas.

Pois bem, o Jornalismo não é nem Publicidade nem Propaganda; não é seu papel agradar alguém e por isso que jornalistas incomodam. O que está em jogo é a verdade, não o famoso "passar pano".

Pelo senso crítico e por acompanhar o que está acontecendo todos os dias, é o Jornalismo que exerce a função de fiscal do governo, podendo expressar críticas e questionamentos – não é à toa que é conhecido como o quarto poder do Estado Democrático. Essa ideia surgiu em meados do século XIX, momento em que passou a ser considerado o órgão responsável por vigiar os três poderes atuantes: Legislativo, Executivo e Judiciário.

A liberdade de imprensa é fundamental para que possa investigar o que precisa ser investigado, sem contar que é um direito constitucional: "nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, incisos IV, V, X, XIII e XIV" - art. 220, § 1º. O acesso à informação é imprescindível para garantir a transparência de dados, sendo outro direito assegurado por nossa Constituição.

Portanto, a imprensa livre é fundamental para o gerenciamento de nossa sociedade. Para desempenhar suas obrigações, os jornalistas precisam estar envolvidos e engajados com os acontecimentos. A busca pela verdade e a dedicação em fazer um trabalho bem feito não podem ser impedidos por pessoas que ocupam altos cargos de nosso país.

Se a imprensa não puder correr atrás e denunciar aquilo que ela apura, a probabilidade de termos mais um órgão voltado para a Propaganda é alta. Não podemos nos calar diante de julgamentos dos mais diversos setores da sociedade.

Não temos o título de jornalista por mera coincidência. Passamos anos estudando e nos aprimorando para montar uma carreira e respeito é o mínimo que queremos. Como dito anteriormente, nossa função não é agradar ninguém; nossa função é investigar o que está acontecendo, estando sempre de olho ao nosso redor. Nós precisamos cobrar.

Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), os políticos atacam a mídia por preferirem impor ao público o discurso que mais convém aos interesses deles, o que torna tal postura antiética por quererem manipular aquilo que é disponibilizado para a população. Não cabe à imprensa fazer propaganda política.

E não digo isso somente com um viés político. Não importa qual o âmbito que está sendo discutido, o dever do jornalista é averiguar, mesmo isso sendo negativo para a reputação de alguém. Não estamos na posição de puxa-saco de determinada autoridade. O que deve ser questionado será nada mais nada menos do que um serviço que coloca em evidência os direitos da população de saber o que está acontecendo. O quarto poder está aí, firme e forte apesar dos trancos e barrancos. Estamos dispostos a solicitar prestação de contas para quem nos deve.

Agora, se um jornalista está incomodando com a sua curiosidade, com seus questionamentos e suas habilidades de apuração, então isso quer dizer que realmente há algo de errado aí. Quem não deve, não teme.

Publicidade e Propaganda se distanciam do Jornalismo na medida em que priorizam a promoção de algo, vendendo o "próprio peixe". O Jornalismo, por outro lado, está preocupado com a divulgação dos fatos. E mesmo com as diferenças, as áreas acabam se aproximando, muitas vezes, quando empresas querem unir as diversas funções em somente um profissional para não precisarem gastar dinheiro com mais de um cargo. A segmentação, então, acaba deixando de ser uma realidade em diversos momentos, incitada pelo interesse de contratantes em evitar gastar dinheiro. Isso pode ser visto, por exemplo, quando encontramos cargos de Jornalista Publicitário na busca por empregos.

Dessa forma, podemos notar que há diversos tipos de profissionais no mercado com variadas especializações. Atualmente, há uma necessidade em saber de tudo um pouco na hora de ser contratado, mesmo que seja uma noção básica, mas mesmo assim, a essência de cada segmento prevalece. Está tudo bem em ter um pé em cada campo da comunicação; o importante é não deixar de lado os princípios de sua ocupação.

Fonte: Isabelle Taranha

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