Coluna do Dainese
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O Impacto da Pandemia de COVID-19 e a Mortalidade por Câncer de Mama

O Impacto da Pandemia de COVID-19

Por Nação Sampa News em 15/08/2020 às 22:04:42



Dr. Marcelo Antonini

Médico Mastologista, Obstetra e Ginecologista

Coluna: Saúde da Mulher






A pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2) está perturbando o mundo. Por ser um agente infeccioso desconhecido, ainda não há vacina para evitá-lo ou medicamentos comprovados para diminuir seus efeitos. Atualmente, a única medida eficaz para prevenir a infecção é o isolamento social. Alguns dados começam a mostrar que essa situação terá um impacto negativo no tratamento do câncer, e até poderá aumentar as mortes, devido a vários tipos de tumores.

Um estudo nessa direção vem do Reino Unido e está sendo finalizado para ser publicado no British Medical Journal (BMJ). Pesquisadores da University College London analisaram dados semanais de oito hospitais em tempo real e descobriram que os encaminhamentos de emergência para pacientes com câncer suspeitos foram reduzidos em 76% e os regimes de quimioterapia foram reduzidos em 60% em comparação com antes da disseminação do câncer.



Entre os pacientes com câncer, com maior risco de complicações por infecção por coronavírus são pacientes com câncer de pulmão, pacientes submetidos a transplante de medula óssea ou quimioterapia, pacientes idosos e pacientes com comorbidades.

Uma análise realizada na Inglaterra estimou que entre os pacientes com câncer recém diagnosticados, haverá pelo menos 6.270 mortes adicionais nos próximos 12 meses, representando um aumento de 20% nas mortes pela pandemia COVID-19. Uma pesquisa da University College London e do Data-Can mostra que, se você levar em consideração todas as pessoas que atualmente têm câncer, esse número poderá aumentar em aproximadamente 17.915 mortes.


Algumas das mortes em excesso ocorrerão em pacientes com câncer com COVID-19, enquanto outras ocorrerão devido a atrasos no diagnóstico ou tratamentos tardios, como cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. O Serviço Nacional de Saúde (NHS) da Inglaterra alertou que, após entrevistas com usuários com sintomas de câncer, quase metade deles temia procurar tratamento durante a pandemia e não deveria hesitar em realizar avaliações periódicas. A análise utiliza dados dos registros de saúde de 3,8 milhões de pacientes na Inglaterra e estima-se que aproximadamente 31.354 pacientes com câncer recém-diagnosticados morrerão antes da pandemia.

No Brasil, não é diferente: dada a escassez de recursos já existentes no SUS, pode-se até pensar que o impacto será pior. A Sociedade Brasileira de Oncologia Cirúrgica e a Sociedade Brasileira de Patologia relatam que 50.000 a 90.000 brasileiros podem não ser diagnosticados com câncer. Na maioria dos tumores, o diagnóstico precoce é essencial para reduzir a mortalidade e melhorar as chances de recuperação.

Para esclarecer, entre 11 de março e 11 de maio de 2020, a rede pública de São Paulo contabilizou 5.940 biópsias. No mesmo período de 2019, foram 22.680. Mesmo no ano passado, um centro de referência no estado do Ceará diminuiu o número de biópsias de 18.419 para 4.993 e Minas Gerais passou de 8.402 para 1.676.

A Sociedade Brasileira de Mama alertou que o número de pacientes que recebem tratamento para câncer de mama em hospitais públicos de todo o país diminuiu durante a pandemia. Segundo pesquisa realizada por hospitais, das principais capitais que prestam serviços via Sistema Único de Saúde (SUS), no período de março e abril, a cobertura de mulheres em tratamento caiu em média 75%, em comparação ao ano passado, no mesmo período. O INCA estima que haverá 66.280 novos casos de câncer de mama no Brasil a cada ano, durante o triênio 2020-2022. Esse valor corresponde a um risco estimado de 61,61 novos casos por 100.000 mulheres.

A pandemia criou entre os pacientes e até mesmo entre os familiares um medo exacerbado, levando a faltas em consultas e atrasos em realizar exames de rotina e até mesmo em realizar tratamento médico adequado. O atraso no diagnóstico devido a preocupação com a contaminação, leva ao atraso no tratamento clínico e cirúrgico. Não podemos culpar apenas instituições públicas ou privadas por tomarem todas as medidas necessárias para cuidar de pacientes com COVID-19.

Uma pesquisa do Oncoguia em pacientes com câncer mostrou que 43% dos pacientes com câncer responderam que o atraso ou a interrupção do tratamento ou procedimentos foi decidido por clínicas e hospitais, por um lado devido a necessidade de priorizar o atendimento de pacientes infectados pelo COVID-19, incerteza sobre o risco de propagação do COVID-19; falta de profissionais de saúde ou outros fatores relacionados à pandemia. Entre os pacientes com câncer que receberam o questionário e usaram o Sistema Único de Saúde (SUS), seis em cada dez pacientes disseram que o tratamento era eficaz, em comparação com 33% dos pacientes em hospitais privados.

Existem muitos fatores que influenciam esses resultados: mudanças rápidas nas opções de diagnóstico e tratamento, medidas de distância social, mudanças no comportamento das pessoas que procuram tratamento e o impacto econômico da COVID-19, relacionado a mortes diretamente relacionadas à infecção por COVID-19.

O mais importante é explicar as mulheres com câncer de mama, que procure assistência médica, porque esta doença é mais mortal que o coronavírus. No Brasil, se a taxa de mortalidade do COVID-19 for de cerca de 5%, no câncer de mama, se puder ser diagnosticada com antecedência, você terá 95% de chance de ser curado. No diagnóstico precoce, sua taxa de mortalidade será semelhante à do COVID-19. Obviamente, isso não acontecerá imediatamente, mas nos próximos cinco ou dez anos.

Estamos em um momento muito delicado, um momento único no meio de uma pandemia e, obviamente, ninguém jamais viveu. Isso leva a uma série de sentimentos, sendo um dos quais é a falta de informações sobre o impacto da COVID-19 em outras doenças, como o câncer. O déficit no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama já existia no Brasil antes do início da pandemia, e agora irá se agravar. Cabe aos médicos e aos políticos encontrarem soluções que minimizem de forma a não prejudicar ainda mais a população.

Fonte: Dr. Marcelo Antonini-Médico Mastologista, Obstetra e Ginecologista-CRM:108731

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